quinta-feira, 2 de junho de 2011

MBA lá e cá


Publicado por: O Estado de São Paulo, 31/05/2011 - São Paulo SP - Carlos Lordelo e Felipe Mortara
 
Escolas de negócios fazem parcerias internacionais e oferecem programas no exterior, apostando no novo perfil do aluno, que busca vivência no mercado global

No best-seller O Mundo é Plano, o jornalista americano Thomas Friedman afirma que barreiras históricas e geográficas ficaram irrelevantes no mundo globalizado. Para ele, quem quiser se manter competitivo nesse cenário precisa buscar qualificação. Executivos brasileiros podem até não ter lido o livro, mas estão seguindo o conselho à risca. Para muitos deles, os MBAs devem abrir as portas da globalização literalmente, permitindo fazer parte do estudo no exterior. Para atender a esse público, escolas de negócios têm ampliado convênios com instituições de fora. Há vários tipos de parcerias. A mais comum permite ao aluno que está perto de terminar o MBA fazer uma semana do curso em uma business school estrangeira. Em convênios mais sofisticados, executivos têm aulas em três continentes. O diretor do Instituto Coppead de Administração, da UFRJ, Kleber Figueiredo, diz que as parcerias atendem ao novo perfil do público, que fala inglês fluentemente. "Você não pode mais condenar o aluno ao ambiente doméstico de negócios. Ele precisa ter visão externa. O mercado pede isso." Para o americano John Schulz, sócio da BBS Business School, de São Paulo, não foi só o domínio do inglês que levou à internacionalização das escolas. "Para nossa surpresa, a média de idade dos alunos subiu de 29 para de 33 anos nesta década. Antes, eles queriam virar empreendedores. Agora, 70% da turma são de executivos de multinacionais e o resto, de grandes empresas daqui."

Os intercâmbios são uma opção para quem quer fazer o MBA fora do País, mas não pode, pela falta de dinheiro ou porque não quer largar o emprego. Mesmo que a temporada no exterior seja curta, quem já viveu a experiência diz que vale a pena: para conhecer outros ambientes de negócios, refletir sobre a gestão nas empresas daqui e agregar à rede de contatos executivos do mundo inteiro. Em termos de interação com profissionais de vários países e imersão em culturas, o OneMBA, oferecido pela Fundação Getulio Vargas, é, para usar um termo da moda, diferenciado. Eleito pelo jornal britânico Financial Times o 22.º melhor MBA Executivo do planeta, o One nasceu de uma rede global de cinco escolas de negócios da Ásia, Europa, América do Norte e América do Sul.

Cada instituição tem uma turma de 15 alunos que participam de grupos "multicontinentais", os global teams. Eles produzem trabalhos coletivamente ao longo dos 21 meses do curso, cuja língua oficial é o inglês. Ao fim de cada um dos três módulos, reúnem-se em uma das cinco cidades para apresentar projetos, feitos à base de muita videoconferência. Nas viagens, assistem a palestras sobre economia, história e cultura locais. "Quando meu pai se formou, há 40 anos, era importante ter inglês. Quando me formei, era essencial saber falar duas línguas e trabalhar em equipe", diz o gerente sênior de Comércio Eletrônico do Walmart, Leandro Bassoi, de 32 anos, que está no segundo         módulo do One. "Hoje é necessário conhecer várias culturas: você precisa interagir com o mundo para fazer negócios." O executivo Amaury Guerrero, de 45, que concluiu o One em 2008, guardou na memória o perfil dos colegas. "O chinês esperava alguém liderar o grupo, e o americano sempre se oferecia para a posição. O europeu se preocupava em entregar um bom trabalho e também se divertir. O indiano era supernegociador, enquanto o brasileiro e o mexicano estavam mais focados em fazer contatos", diz Guerrero, promovido, após o MBA, a vice-presidente da empresa de produtos oftalmológicos Alcon nos Estados Unidos.

Outro curso bem colocado no ranking do Financial Times - está na 44.ª posição - é o Executive MBA da Universidade de Pittsburgh, que tem módulos nos Estados Unidos, em São Paulo e em Praga, na República Checa. "O Brasil é um ponto crítico da nossa rede", diz John Delaney, reitor da Katz, a escola de negócios da universidade americana. Ele aposta na estratégia de manter uma filial em São Paulo para se diferenciar. "Para ser global você precisa ter mais do que parcerias para programas no exterior. É necessário estar presente em diversos países, para entender o que acontece neles." Xangai. A maioria das instituições, porém, aposta nas parcerias. No Insper, o Global MBA fornece certificado em conjunto com a Freeman School of Business, da Tulane University, nos EUA. Os alunos assistem a aulas por um ano e meio em São Paulo. A cada quatro meses, viajam por uma semana para conhecer o ambiente de negócios e a cultura do México (Cidade do México), Colômbia (Bogotá), França (Paris) e China (Xangai). Depois, têm 144 horas de atividade em Tulane.

A experiência no exterior prepara o executivo para enfrentar a concorrência, diz o diretor da FIA, Maurício Jucá de Queiroz. "Independentemente de pensar que não pretende fazer negócios com empresas de fora, ele certamente será impactado por empresas estrangeiras que estão atuando aqui." A FIA oferece o MBA Executivo Internacional, que inclui aulas em São Paulo e visitas a companhias na Ásia, EUA e Europa. Aluno do curso, o diretor médico para a América Latina da farmacêutica Bausch&Lomb, Luiz Fernandes, de 41, acha que o diferencial está na troca de conhecimento entre os alunos. "A gente aprende como outras empresas funcionam e se adaptam para resolver problemas." Ao contrário dos programas mais longos, na maioria dos cursos o aluno tem como opção investir um dinheiro extra para fazer parte do MBA fora. As viagens são como intensivões, que duram de uma a sete semanas, com aulas e visitas a empresas em período integral.

Ex-aluna do MBA Executivo do Coppead, a médica Germana Bähr, de 50, completou a formação num curso de seis semanas na Audencia École de Management de Nantes,             França, no ano passado. Segundo Germana, que chefia uma unidade do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, no Rio, os módulos foram puxados. "Tinha aula das 8 às 6 da tarde e precisava fazer milhões de estudos de caso. Dormia às 3 e acordava às 6. Foi pancadão." Na BBS, o convênio com a University of Richmond, dos EUA, existe há dez anos. Os alunos podem passar sete semanas tendo aulas com executivos americanos. O gerente de Crédito para América Latina do Itaú Unibanco Alessandro Barros, de 39, cursou em 2008 os módulos de estratégia de negócios e liderança. "Os americanos têm um conhecimento muito mais profundo de gestão." Autoestima. Mesmo curtas, as viagens podem ser marcantes. A gerente de Marca da Ford Lucíola Duarte, de 37, diz que a ida aos EUA elevou sua autoestima. Aluna do MBA Executivo da ESPM, ela ficou 15 dias na Florida Internacional University, em Miami. "É um carimbo a mais no currículo. Para quem é latino e trabalha numa multinacional, faz diferença."

Na Business School São Paulo, os alunos do MBA Executivo vão para Barcelona este ano, numa parceria com a Universitat Politècnica da Catalunha. A viagem, de oito dias, é obrigatória e garantirá dupla certificação. "Eles vão conferir como a Espanha está lidando com a crise econômica", diz o diretor acadêmico, Armando Dal Colletto. Para ele, a temporada de estudos e visitas a empresas consolida o que os alunos vêm aprendendo desde o ano passado. "O curso está 70% concluído. É a hora de complementar a formação, a cereja do bolo."

No MBA Executivo Empresarial da Fundação Dom Cabral, em Minas, os participantes podem aproveitar créditos cursados durante uma semana na Kellogg Graduate School of Management, nos EUA. Lá, eles têm aulas dos temas que são especialidades da escola: liderança, marketing e negociação. Quando pesquisou MBAs, Marisa Sanvito, diretora executiva da Quintiles, empresa de serviços para a indústria farmacêutica, já definiu que faria parte do curso fora do País. Escolheu a Dom Cabral e foi para a Kellogg em novembro. Recomenda o programa com entusiasmo: "A semana nos EUA será apenas o impulso inicial para outros cursos no exterior." Um dos programas menos convencionais é o MBA Atlântico, criado em 2010 por universidades católicas do Brasil, Portugal e Angola. Os alunos passam períodos de três meses em Luanda, São Paulo e Porto. Único brasileiro da primeira turma, Ricardo Santos, de 32, gestor no País da área financeira da EDP, holding portuguesa do setor de energia, ficou impressionado com o crescimento de Angola - de, em média, 11% ao ano na última década, mesmo com deficiências estruturais. Em São Paulo, gostou de ver como estrangeiros são otimistas quanto ao Brasil. "Mais que nós mesmos." No Porto, a característica marcante foi a organização. "Vivenciar essas realidades foi enriquecedor."